FELIZ DIA DOS N@MORADOS

Seria clichê falar sobre o dia dos namorados um dia antes dessa fatídica data, não é? Também acho. Por isso esse texto é sobre esse dia. Como vocês devem ter percebido, não sou praticante dessa arte chamada “amor” e não prego nada mais do que a liberdade amorosa veiculada com a lascividade dos desejos humanos. Então não esperem muito.

Também não sou o tipo de pessoa radical que classifica tal data como um “golpe comercial” para fazer a economia girar durante o mês de junho. Não. Realmente acredito que seja uma data para celebrarmos sentimentos bonitos, que nos fazem felizes ao compartilharmos com uma pessoa. Afinal, mesmo não crendo na sinceridade da maioria das relações amorosas, creio nas coisas boas que nos impulsionam a nos importarmos com os outros. Assim sendo, let’s begin…

08-juliano_neryTalvez haja algum verso em uma poesia qualquer a frase “morreria de amor…” seguida muito provavelmente de “morreria de amor, mas o amor morreu primeiro”. Por que digo isso? Porque acredito que o amor morreu nas frases não ditas ou nas postagens tão seletamente escolhidas. Morreu no dia de chuva não quisto, mas principalmente na foto instagranizada de um presente caro. Pra mim, o amor morreu, em muitos casos no fulano (a) atualizou seu status para “em um relacionamento sério”.

Triste morte, triste fim. Mas ninguém precisa ficar sabendo, certo? O importante é o “bomdianamorado(a)maislindo(a)doUnIvErSo” (prevejo muitos pensamentos sibilados pela palavra ‘recalque’. Gente que fique claro, só é recalque quando a pessoa que critica sente inveja, o que não é o meu caso). Só estou dizendo isso porque vejo muitos casais que frente a frente são incapazes de um te amo sincero, mas que declamam poesias e corações nas redes sociais. E mais terrível, digo isso porque vi uma propaganda intitulada “quem ama assume nas redes sociais” (obrigada lojas Marisas) e juro, quase tipo um ataque histérico ao constatar que chegamos a isso .

Estamos em um ponto em que FALAR COM O CAPSLOCK ATIVADO É SINAL DE GROSSERIA e que um ❤ no final da frase vale mais do que um abraço. Os sentimentos viraram panfletos na internet e feliz é aquele que consegue entregar o seu a mais “amigos”. Sinto que avançamos tecnologicamente e regredimos socialmente. Afinal, quem ainda opta pelo “bom dia bocejado” ao invés do “BOM DIA. O trabalho edifica o homem – Caio Coelho de Abreu.”?
E então chegam as datas especiais repletas de lindas mensagens e inúmeras montagens de fotos. E me pergunto, quantas dessas homenagens são ditas pessoalmente? Quantas palavras bonitas são proferidas durante um longo abraço de comemoração?

Acredito que às vezes as pessoas precisam ouvir algumas coisas doces para serem felizes. Coisas que não sejam partilhadas para todos “curtirem”. Palavras que apesar de não serem raras, pelo momento, se tornam a canção mais linda de todo o universo. Algo especial que só fique entre o casal, sabe?

relaçãoIsso não é o discurso de uma pessoa fria (em parte) e que inveja os casais felizes das redes sociais. Não mesmo. Pelo contrário, são palavras de alguém que se preocupa pelo fato do romantismo ter sido reduzido a curtidas e compartilhamentos. Me pergunto quando foi que roupas e sapatos ganharam o ar de amorosidade e entraram para o rol de presentes essenciais para quem você ama? Ou em qual parte do caminho os jantares a luz de vela, o cartão escrito à mão, o poema estudado e decorado, a carta perfeitamente alinhada, perderam o sentido e se tornaram arcaicos ao ponto de serem usados somente em livros?

Talvez eu esteja errada, o que é completamente compreensível, afinal, 90% da minha vida foi escrita sobre erros. Mas se fosse eu a amar alguém, restringiria essa data a um quarto de hotel, velas aromáticas, sorrisos e abraços. Se fosse eu em estado de “namorada” escreveria nossa história em papel de carta, faria um livro com nossas melhores fotos, camisetas que combinem. Só digo que se fosse eu a menina apaixonada, não esperaria o cavalheirismo de meu companheiro despertar, mas armaria longe de qualquer meio de divulgação, um jantar a luz de velas, flores e perfumes doces. Deixaria bem claro que amo mesmo sem ninguém estar “curtindo”

Mas como não sou, desejo a todos os casais um Feliz Dia dos Namorados, repleto de lindas provas de amor parceladas dez vezes no cartão 🙂

Certas coisas

– Você o viu?

– Quem?

– O alto?

– Uhum.

– O que achou?

– Simpático.

– Simpático? Só?

– Alto também.

– Entendo.

– Pois é. E o outro? Quem era?

– Apolo.

– Sério? – risos

– Sim. O pai dele tem uma queda por história e três pela Grécia antiga.

– Saquei. Apolo e Alto? – Mais risos.

– Não, idiota. Apolo e Marcos. Combinam não?

– Ao que parece, sim. Mas então, qual é o problema?

– Não sei o que escolher.

– Entre?

– Pessoas.

– Vish. Não podia ser simplesmente entre duas peças de roupas?

– Quem dera. Não sei o que fazer. Estipularam um prazo, mas essas coisas não devem ser decididas sobre a pressão de uma data. Todo mundo sabe.

– Menos Jon e* Snow – risos – Agora, falando sério. Qual é o problema entre escolher?

– O problema é que gosto dos dois.

– Como assim? Ninguém gosta de duas pessoas ao mesmo tempo e na mesma proporção.

– É eu sei. Mas eu gosto.

– Isso é estranho. Talvez você devesse escolher o que mais combina contigo

– Pois é. Mas veja Marcos e Apolo.

– O que têm eles?

– São completamente diferentes.

– Como assim?

– Um é Flamenguista, ouve sertanejo e trabalha com contabilidade. O outro é fluminense, adora música clássica e é administrador. Marcos vai à academia todos os dias, tem um Iphone e gosta de roupas caras. Apolo diz que o melhor exercício do mundo é andar pelo parque carregando um livro até achar sombra suficiente em baixo de uma árvore, para sentar e ler. Consegue entender?

– Acho que sim. Você quis dizer que os dois são totalmente contrários?

– Exatamente e, no entanto, vivem uma das relações amorosas mais bonitas que já vi.

– Não sabia que namoravam. Que fofos.

– Uhum. São lindos mesmo. Mas voltando ao meu problema. Preciso escolher entre duas pessoas que me completam de diferentes formas e não sei o que fazer.

– Talvez deva escolher a que você goste mais.

– Gosto das duas.

– E do gosto também?

– Como assim?

– Do gosto ué. Tem gente que tem gosto de café, baunilha, hortelã, cigarro. Eu mesma costumo avaliar se gosto ou não de alguém pelo gosto da boca dela.

– Credo, que maneira estranha de saber as coisas.

– Melhor do que não saber, não é?

– Talvez.

– Talvez você deva tentar. Ou como já dizia o poeta, talvez você deva seguir o caminho que tem mais coração.

– Mas como saberei com qual dos dois trilharei esse caminho?

– Nunca saberá – risos.

– Do que está rindo?

– Acho engraçado o fato de batermos a cabeça sobre algo que não temos nenhuma certeza se dará certo ou não. E de que quando tomada a decisão, sempre haverá aquela dúvida ecoando no fundo da mente “e se?”.

– Não acho graça.

– Pois é melhor começar a achar. A vida tem o dom de nos pregar peças desse gênero.

– Você não me ajudou.

– Nunca disse que a ajudaria.

– Mas sempre disse ser minha amiga.

– Nunca disse que não seria.

– Então por que não me ajuda a decidir?

– Porque há coisas do coração que somente nós mesmas podemos resolver.

O cheiro que vai. A saudade que fica.

Se as almas possuíssem alguma característica física, a minha seria representada por um grande e anguloso nariz. Desses que aspiram cada partícula de odor do ar e que inspiram com a confiança militar de que nunca lhe faltara o que respirar. A verdade é que “os cheiros” são minhas lembranças mais vivas.
Sinto cada pessoa, vivo cada momento e lembro de cada sorriso através de uma passagem de ar. São inúmeros odores doces, acres, mofados ou vivos que estabelecem vínculos em minha vida. Ninguém passa por mim sem deixar um cheiro marcado, almiscarado ou salpicado de suor. Não importa. A pessoa vai e seu cheiro fica, incrustado em minha pele, fixado em meu cérebro e registrado no meu nariz adunco.
Talvez seja por isso que invejo tanto essas autoras de livros virais. Elas retratam os cheiros de uma maneira sensual, única e precisa. E isso vai desde o couro forte e esticado até as fogueiras que crepitam com o calor de corpos sem cabeças. O odor desenhado por palavras em cada pagina penetra meus olhos e preenche cada mínimo espaço de meu nariz imaginário.
Costumo dizer que pessoas ricas cheiram tudo igual e que Caroline Herrera é usado como água em certos residenciais. Mas graça a essa coisa chamada “pele”, cada perfume ganha a sua característica inovadora. Cada aroma se adequa a nosso corpo de forma diferente. Afinal, o seu doce não é o meu. Minha madeira não faz a tua casa e o suco cítrico do outro não nos convêm.
Por exemplo, o cheiro do garoto de séculos atrás era nauseante. Uma mistura de suor, desodorante de perfume e essência putanesca. Deixava um rastro de menino que a mãe precisa implorar para que limpe o quarto. A culpa em todo não era dele. Era da natureza que o fez intolerante a temperaturas maiores que 8°C. Para resumir, não durou mais do que alguns banhos de suor que me martirizavam.
O da pessoa ao qual esse texto é em parte dedicado, ao contrário do que sempre dizia, era uma mistura de roupa limpa, sonhos e óleos almiscarados. Tinha um quê de flores do campo e menta, muita menta. O perfume ora adocicado ora perdido em forças cítricas, vinha bater em minha cara como uma lufada boa de vento, indicando que “estava tudo bem” e que bons ares só poderiam indicar bonança.
Em noites frias era um cheiro diferente, de roupa quente e calor abrasador. Temperado com o frio das bochechas, criava um ar de realeza, desses odores que você imagina em salões de festas, repletos de buquês de flores e danças puritanas. Era algo que sempre foi, é e será doce.
E também há o cheiro de outra pessoa especial. Um que me fazia sentir parte de algo maior, de uma família completa. Um aroma de parente de sangue em alguém que me presenteou com amizade. Se eu for parar pra analisar, eram cheiros simples, de pessoas incríveis, que por descuido deixei caírem da penteadeira. Aromas que quebraram em mil pedaços e se espalharam, com a ajuda do vento, por minha vida e que de vez em quando chegam como vendaval, devastando todas as forças que criei para superar, arrastando para longe toda a base que reconstruí.
Eu gosto de cheiros. Gosto de sentir e lembrar de pessoas pelo perfume deixado em meu pescoço ao me abraçarem e não gosto da ideia de deixá-los irem embora, de perdê-los em meio a tantos novos odores. Pra mim, perfumes têm um pouco dessa coisa de amizade, você tanto, tanto, mas tanto usa que um dia perde o olfato para ele. Não o sentindo nem quando despeja o frasco inteiro pela roupa. Nessa hora é necessário trocar. Experimentar um novo, se encantar com outro. Quem sabe, se o perfume for paixão antiga, você um dia volte a usá-lo para relembrar uma época boa de sorrisos e canções?

Feliz Aniversário

Eu não tinha ideia do que escrever. Estou um pouco cansada de mim, das minhas dores e meus monstros. Mas obviamente o tema veio fácil. Foi só sentar e esperar, fingir que não tinha nada em mente, enquanto meu inconsciente batalhava por novas palavras para falar a você. Não que já não as tenha dito em milhares de frases passadas, acontece que a data é propicia para dar um “oi” e dizer “saudades de seu cheiro” e assim como todos os anos, estou saudosa e angustiada com aquela ânsia inocente de sentir novamente sua presença.

Noeli Moreira Paz

Noeli Moreira Paz

Talvez mãe, se você estivesse aqui saltitando e falando ao meu lado ou brigando e fumando seu cigarro desgastado, eu não sentisse tanto desejo de eterniza-la em documentos de Word ou de formata-la, justificando seus espaços e reordenando suas vírgulas. Em verdade, acredito que se ainda estivéssemos juntas viveríamos em completo pé de guerra. Eu preocupada com sua saúde e comportamento e você me chamando de velha antiquada e tirana. Não que nosso comportamento antagônico não fosse nos permitir dividir alguns vícios ou bebidas ou amigos ou a nossa própria cama.

Ainda lembro desse seu jeito menina de me chamar de princesa, me pegar no colo e “rodar o mundo”, como se eu fosse apenas uma de suas bonecas. Da sua maneira doce de dizer “te amo” e da forma como me olhava quando íamos dormir. Da força que usava ao segurar minha mão para atravessarmos a rua e principalmente da maneira que você encontrou para me dar todo o necessário  a minha vida de criança, a fim de compensar sua ausência.

Você foi mulher o suficiente para carregar suas próprias dores e fazer da minha infância a mais feliz possível. Infelizmente fraquejou praticamente no inicio da nossa jornada juntas e esse seu deslize, por assim dizer, nos custou um afastamento de quase 15 anos, uma distância de sopros de vida e verões quentes. Não a culpo, afinal, há certos acontecimentos que fogem dos padrões concebíveis e aceitáveis. Você assinalou sua sina naquela manhã ensolarada em que me deu um ultimo beijo na testa. Eu criei a minha culpa a partir do momento que por birra, optei por fingir dormir enquanto você arrastava sua mala pela sala com destino a “infelicidade” de uma praia sangrenta qualquer.

Ao menos mãe, você não teve que viver com a possibilidade do “se”. E “se” eu tivesse levantado e te abraçado? E “se” tivesse chorado e pedido para você ficar? E “se” eu tivesse dito que te amava? Será que teria sido diferente? Será que a consciência teria lhe acertado entre os olhos e a feito acordar para a verdade de que o seu dever era estar ao meu lado todos os dias?

Mas não importa não é? O “se algo tivesse acontecido” não irá trazê-la de volta não é mesmo? Você se foi, assim como o frio do inverno ou as flores das árvores se vão a cada nova estação. O que ficou são duas datas importantes e uma delas é o propósito desse texto.

Quero desejar a você, senhora de meus sonhos e desejos, um feliz aniversário. Sim, é estranho depois de tantos anos já idos continuarmos nesse fingimento de que todo o dia 06/04 é seu aniversário. Afinal, suas fotos não envelheceram ou desbotaram um dia sequer com a ação do tempo. Mas acontece que isso me faz bem. Faz com que eu a sinta perto, sorridente e acima de tudo, feliz. Repleta de uma serenidade que sempre quis proporcionar a você, cheia de um amor incontido e vazado.  Então rainha de meu castelo imaginário. Nessa data querida se lembre de que em vida e morte houve e sempre haverá alguém para te amar, zelar, desejar e sonhar. E que você antes de anjo alado era a melhor mãe do mundo. Feliz aniversário linda 🙂

Mulheres da Literatura

Mulheres e Livros

No inicio da semana passada as meninas propuseram homenagear as “grandes” mulheres da história, discorrendo sobre os maiores feitos alcançados por elas nesse último século. Afinal, mulher é muito mais que peito e bunda. Mulher é alma e causa. Ação e reação. E acima de tudo é testemunha e jurada de séculos e mais séculos de machismo trucidante.
Propus algo diferente. Se acabou ou não a semana da mulher, fica a seu critério querido leitor (a). Para mim, todas as semanas são nossas, bem como os meses e os anos. Por que nos relegarmos a apenas um dia no calendário? Por que esperar por uma data somente, quando podemos celebrar todas as horas como se fosse uma festa onde a maior atração é estarmos simplesmente vivas?
Pois bem mulheres. Proponho a convocação de todos os deuses e almas, um festival eterno de sorrisos e flores. Onde não haja motivos para choro, muito menos tristeza. Sugiro que o riso argentino de Aurélia seja a música ambiente e que os olhos de ressaca de Capitu virem aquarelas vivas penduradas pelo salão, com o único intuito de seduzir homens, desarmar exércitos e conquistar territórios inexplorados.
Nos armemos com as palavras dessas mulheres floridas que desbravaram um universo repleto de heróis masculinos. Mulheres capazes de desgraçarem vidas com um olhar e levarem famílias a bancarrota com apenas um beijo. Gostaria que falássemos sobre Marguerite/Lucíola sem nos envergonhar das fraquezas humanas ou da languidez da alma.
Pode soar egoísta, feminista ou sem nexo. Mulher tem dom, direito e dever de não fazer sentido. E assim como todas as personagens fortes do universo feminino literário, tudo isso não passa de meras e envelhecidas palavras. Mas que pela antiguidade e as marcas do uso, ganham o poder do respeito.
Que fique claro, as personagens citadas aqui fazem parte da minha coleção de lembranças literárias e elas serão descritas por uma entusiasta das visões prosaicas masculinas sobre o mundo feminino. Sou uma “alma velha” que se apaixonou a primeira vista por Alencar, tomou gosto por um tal de Assis, tentou se encantar por Guimarães Rosa, mas ao fim, descobriu que seu tipo faz parte da sessão empoeirada e amarelada de “literatura estrangeira”.

José de Alencar, escritor urbanista do século 19

José de Alencar, escritor urbanista do século 19

Aurélia, Emília e Lucíola, para mim, as três mais belas jovens dos salões de festa da alta sociedade do Rio de Janeiro do século 19. Não desconsidero, é claro, Ceci ou qualquer outra moça que tenha brilhado nas noites de galas, oferecidas por velhos barões ou jovens casais. Noites essas tão bem descritas que sempre acho possível ouvir o riso, sentir o cheiro das velas e o gosto do Xerez (um tipo de vinho espanhol, muito apreciado pelas personagens citadas). Talvez, o mais certo e justo, fosse falar delas separadamente, por conta das nuances em suas personalidades. Mas não tenho poder de escrita para tanto. Sei apenas que tais personagens podem ser consideradas um marco na literatura brasileira e não digo isso somente por admirá-las, afinal os fatos históricos estão aí e a mostra. Alencar elevou a mulher ao mesmo patamar dos homens. Hoje, isso pode não ser considerado nada, mas imaginemos uma época onde o patriarcalismo familiar impedia a ascensão feminina. Dessa forma, Alencar ao dar-lhes o poder da argumentação, explicitar o dom da sedução e assegurar a obstinação de caráter, abriu espaço para sonhos e questionamentos. Mostrou que a mulher além de poder sonhar com amores e príncipes, pode e deve desbravar o mundo dos negócios, se vingar de quem lhe fez mal e ser ela mesma, em vestidos de seda ou não. Saem os seres submissos, de feições frágeis e olhares assustados, para entrar em cena mulheres repletas de vida, capazes de sofrer e aprender a viver com suas dores, mas principalmente, capazes de lutarem com suas próprias mãos, quer seja por felicidade, respeito ou simplesmente, por amor. A mulher deixa de ser a coadjuvante das histórias para atuar de maneira fantástica em uma peça só delas, onde tudo pode acontecer, desde navios naufragados a amantes escondidos.

Capitu foi utilizada como personagem em uma minissérie na TV baseada no Livro Dom Casmurro

Capitu foi utilizada como personagem em uma minissérie na TV baseada no Livro Dom Casmurro

Acredito que Capitu seja fruto dessa revolução proposta por José. Apesar de a história ser contada por Dom, é ela o centro, a questão, o quadro a ser apreciado. E se não fosse por ela, não haveria graça e Dom Casmurro seria mais um desses livros chatos. Mas então tem os olhos oblíquos e dissimulados, uma coisa cigana, um ar de rainha em alguém que nasceu na plebe. De repente ela não é só um amor de menino e sim, o sonho de cada homem. E se eu fosse estúpida o suficiente, faria uma analogia ousada. Casaria uma personagem passada com uma que desfila nos dias de hoje, sob a vista dos avaros caçadores de histórias de cavalheiros, princesas e castelos. Como não conseguirei traçar uma linha lógica de Cersei Lannister até os cabelos escuros de Capitu, desisto antes mesmo de me divertir com a ideia de vislumbrar semelhanças em suas personalidades.
Pois bem, lá se foi Assis e Alencar, com suas divas, senhoras, esposas e Lucíolas. Abrirei as portas agora para Isabel Allende. A diva da literatura chilena, sobrinha do ex-presidente Salvador Allende. Isabel, juntamente com sua família e sim, é preciso saber sobre o ambiente em que vivia para entender sua mais fantástica obra, foi obrigada a fugir do seu então país, Chile, logo após o golpe militar que matou seu tio-presidente.
Seria morbidez dizer que há certos males que vem para o bem? Acredito nisso quando penso nessa história, repleta de simbolismos, saudosismo e acima de tudo, relatos de uma época triste em um país tão próximo. É uma graça ver a fantasia entrelaçar tão bem com a realidade, criando algo além de uma reles história. A Casa dos Espíritos é um livro capaz de trazer a sensação de transcendência da carne, expiação dos pecados e humanização dos sentimentos.
De maneira sucinta o enredo gira em torno de Clara e Esteban Trueba. Aprofunda-se no relacionamento conturbado dos dois, nos frutos provindos de suas coxas e na geração nascida de suas crias. Clara é mãe de Blanca, que por sua vez é mãe de Alba. Todas são constituídas por uma força guerreira e um coração enorme. São mulheres que nasceram para sobreviver a dores da alma e da carne. E um exemplo disso está no fato de que apesar da vergonha, Clara continua a sorrir até o fim de seus dias, mesmo após perder os dentes da frente por conta de um soco desferido por seu querido marido.

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Como se não bastassem todos os problemas familiares, rebenta-se o golpe militar e Alba então estudante/guerrilheira e neta de um grande senhor/político chileno, é presa e abusada física e psicologicamente em nome de uma bandeira que nem os soldados lembravam mais do que se tratava. E é aí que se encontra o brilhantismo de Allende. Suas mulheres não desistem. Seja do amor, da liberdade de expressão ou da família. Elas agarram com força e batem o pé, cospem na cara de militares, brigam com fantasmas e se embebedam até cair.
Pra entender o contexto todo, obviamente é necessário ler o livro. Não da para resumir em poucas palavras toda a profundidade humana presente em A Casa dos Espíritos. Seria imprudente, insano e uma tremenda falta de respeito. É preciso ter olhos para ler, bem como, coração para dar significado a tanta informação. Assim como não dá para afirmar que as sete personagens presentes nesse texto, são o resumo da força feminina literária. Não o são nem por brincadeira. Elas constituem parte de minha lista de preferências. Faltam nomes e histórias, bem como palavras de adoração.
Eu não falei de Madame Bovary, Dagny Taggart ou até mesma de Blue Van Meer. Não citei Layla, personagem fantástica de um livro espírita. Não comentei sobre “A mulher que escreveu a bíblia” do querido Scliar e muito menos adentrei ao universo de forças de Daenerys Targaryen. Como disse, não tenho poder de palavras suficientes para tanto. E o texto aqui, foi muito mais uma homenagem a minha adolescência, repleta de cenas pitorescas e românticas, reproduzidas diretamente dessas obras centradas em grandes mulheres.
Acredito que mulheres feitas de palavras, são tão fortes quanto às das telas de cinemas. E todas, sem nenhuma exceção, são o rascunho filosófico de alguém de carne, osso, alma e sentimentos. Por isso Feliz dia das Mulheres a todas aquelas que matam um leão por dia, usam salto alto e maquiagem para buscar os filhos na porta da escola e se emocionam com a leitura de grandes clássicos literários