Marasmo

Escritor é bicho estranho, fica procurando estórias para se inspirar e escrever, ladrão do cotidiano, transforma dor, amor, realidade, barulho em palavras. Em todo momento há um conto escondido, uma poesia pela cidade cinza, uma narração contada por barulhos, o escritor esperto faz texto de borboleta voando, silêncio adormecido, ruínas, aspirador, dia de domingo. E é isso, um ladrão diário.

E como ladrona do cotidiano, deixo esse conto, percebido pela observação dos meus dias.

“MARASMO”

Helena caminha sem sentidos, com um vestido de flores mortas, anda se arrastando por obrigação, devaneio. Atravessa as avenidas sem se preocupar com a velocidade dos automóveis. O ar acinzentado pairá em sua face e camufla em seus poros.

Se alimenta com refeições das propagandas enganosas da televisão, não sentindo o sabor e engolindo por pura necessidade fisiológica, seus livros são alimentos das traças, seus discos estão sendo arranhados pelo tempo, não escuta as melodias dos pássaros, acredita nas verdade mal contadas e tem sempre a mesma opinião dos assuntos. Está acomodada, seu corpo não sente endorfinas, e não dança as musicas pulsantes, seus desejos foram ofuscados pelo conforto, suicida diária. Já não sabe o que é sorrir, amar.

Deita em seu quarto e sente-se parte de sua cama, imóvel, como poeira esquecida.

Ela até que gostaria de sentir as cores vibrantes das pinturas dos museus, mas se contenta com as cores foscas do seu dia a dia. Alma vazia, se esvazia a cada dia, ausência de vida, remoto controle, uma realidade sem suspiros, sem sorrisos. A vida escorrega pelos seus dedos e ela não se preocupa, se afoga em dormências miseráveis de sentimentos.

Helena queria sentir a gravidade dentro de si, voar, mas se contenta em caminhar pela escadaria velha, passo a passo de cabeça baixa. Repete seus passos como uma oração, anda em círculos repetidos, repetindo cada minuto de sua falsa eternidade. Suas palavras ecoam um monólogo, um terremoto de escassas afirmações, suas veracidades egocêntricas.

Helena é um reflexo desses humanos que não vivem, simplesmente existem, que caminham sem reparar nas belezas diárias.

Beijoos.

Poesia pelos muros da fronteira

O Accion Poética, é um movimento mural-literário, que se espalha por toda América Latina, começou em 1994, em Monterrey no México, inspirado por Amando Alanis Pulido, cujo fim é a revalorização da palavra mediante a inclusão de poesia na paisagem urbana.
O movimento na fronteira visa a integração das três cidades, Foz do Iguaçu, Puerto Iguazú e Ciudad Del Este,

O ideia se consiste em muros brancos com frases pequenas em português, espanhol e guarani, sem vínculo religioso ou partidário. A ação se consiste de forma voluntária e gratuita, basta a permissão do morador para preencher os muros de poesia ou impacto. Todos podem participar, a poesia deve ser feita por todos, para todos

A reação das pessoas ao ver as pinturas é interessante, em meio as propagandas visuais de consumo, as mensagens se tornam algo incomum, muitos param, olham, ajudam, despertam.

A primeira Ação Poética aconteceu em clima de carnaval, no Cidade Nova. Em meio as marchinhas carnavalescas, com a ajuda dos moradores e das crianças na pintura. A frase é clássica do movimento, em espanhol “Sin poesía no hay ciudad”. Poesia despertando a  alma, cidade.

 

Nossos ajudantes:

A segunda Ação também aconteceu pelo Cidade Nova, moradores doaram seus muros e as poesias se fixaram.

O terceiro dia de Ação, aconteceu no centro, em um domingo ensolarado a galera pintou três muros. Afinal, carregamos todos os sonhos do mundo, não é?

Penso, logo incomodo.

Vamos passar pelas pontes, rios, estradas, atravessar as fronteiras.

Precisamos de muros, tintas e vontade para agregar nossas fronteiras, afinal, a poesia e a expressão não tem limites.

Para conhecer um pouco mais do movimento, só clicar na página do Facebook:

http://www.facebook.com/pages/Acci%C3%B3n-Po%C3%A9tica-Triple-Frontera-A%C3%A7%C3%A3o-Po%C3%A9tica-Tr%C3%ADplice-Fronteira/404331096319060

Guerreiras

Editora Responsável: Priscila Martz

Janeiro, período de férias e estava lá eu matando o tempo, estirada no sofá, quando ligo a TV e fico trocando de canal. Cansada de apertar os botões, deixo em uma emissora qualquer e fico ali observando as propagandas, expectadora de algumas idiotices, e me aparece uma campanha publicitária que vou resumir:

Aparece uma mulher sorridente dizendo que nós mulheres sempre sonhamos com um marido bonito, rico e afins, porque afinal, nós mulheres sempre desejamos o melhor, o pior de tudo é quando ela diz que desejamos o melhor para a nossa casa, por isso devemos usar tal produto.

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Quase taquei o controle na TV. Como assim? Sonhamos só com um homem e com uma casa limpa?

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Achei plenamente injusto, um reforço do patriarcalismo dominante, como se a gente só existisse para arrumar a casa, cuidar dos filhos e mimar o maridão. Isso vem desde cedo, onde nós meninas, ganhávamos panelinhas, vassourinhas, bebês de brinquedo (que hoje em dia até sujam as fraldas e arrotam), e claro, além de todos essas tarefas, precisamos trabalhar para ajudar na renda da casa, estudar, estar sempre produzida, e quando dá, cuidar dos nossos projetos pessoais. Parece que não somos humanas, somos robôs programadas, uma máquina de lavar, como se não tivéssemos o direito de sonhar, ter desejos, realizar nossos projetos pessoais. Por que para ser feliz precisamos de um marido e uma casa para limpar? Por mais projetos que você tenha, sempre haverá uma avó perguntando: – E os namorados?

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E sabe o que eu observo? Muitas mulheres frustradas, encucadas com uma ideia fixa desde a infância, que ela somente pode ser feliz se tiver um homem. Amores, acima de tudo devemos nos amar, a felicidade consiste em nós mesmos e só nós podemos designar o que nos fará feliz ou não.

A conclusão disto tudo é que não somos seres inferiores aos homens, mesmo com os preconceitos que rodeiam a nossa volta, como os salários mais baixos (dados do IBGE indicam que o salário das mulheres equivale a 72,3% do salário dos homens), e todo o trabalho doméstico realizado, que aos olhos de muitos passa despercebido ou desvalorizado, somos seres humanos, e não somente um gênero, os afazeres domésticos devem ser de responsabilidade de todos, ou seja, fazer a divisão das mesmas.

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E quanto à propaganda, muitas de nós mulheres não sonhamos só com o marido (e claro, isso numa relação heterossexual, pois as mulheres podem querer outras mulheres e os homens outros homens), sonhamos acima de tudo em ser respeitadas, com nossos direitos além do papel, sonhamos em viajar, ser artistas, em quebrar tudo que é imposto a nós de forma humilhante, queremos não ser julgadas, queremos acima de tudo ser feliz.

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Bom, este post é dedicado a todas as mulheres deste mundão, que despertam antes do sol nascer, voltam pra casa quando o sol está se pondo e enfrentam o machismo no dia a dia, sabemos que não é fácil, mas nem por isso desistimos. À todas as mães, irmãs, estudantes, sonhadoras, à todas nós, mulheres.

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Cinefilizando

“O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho.”

Orson Welles

 Com o evento que aconteceu aqui na cidade, o Curta Iguassu – The Fast Forward Filmaking Festival e que acontece em tantas outros cantos do mundo, inspirou um tanto para escrever sobre o cinema, de como uma tela consegue nos cativar, emocionar, nos fazer rir, inspirar, ai ai (suspiros). O cinema e o seu mundo mágico servem tanto para nos tirar desta realidade ou para nos aproximar dela, é um meio de se transmitir idéias, sentimentos, ideologias, percepções ou simplesmente nada, as muitas e muitas facetas do cinema.

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Eu amo filmes clássicos, esses bens antigos que se encontram em promoção nas lojas, é de esplêndida riqueza, cara, eu me teletransporto para o filme, e fico imaginando as cenas, o aroma, as cores, a frase ‘LUZ, CAMÊRA, AÇÃO’, é muito bom, e sim, em dias de chuva imito Gene Kelly, uau, I’m singin’ and dancin’ in the rain, lalalalala. E claro, não posso esquecer-me do queridão do Chaplin, no cinema mudo, ele fala com o corpo, com a alma, em mínimos detalhes (quem é ator sabe muito bem, que emprestamos não somente a nossa voz, mas todo o nosso corpo, sentimentos e pensamentos são cedidos para a personagem) que compreendemos do início ao fim. E não adianta mentir, aposto que você queria andar na bicicleta com o ET, ser da gangue dos Batutinhas, ou ser encolhido pelo seu pai, e participava indiretamente das travessuras de Macaulay Culkin quando foi esquecido pela sua família, e claro que todos dançam no Embalo de um Sábado a Noite, e quem não queria pegar o mosquito com o palito, como no Karated Kid, iyáaaaa. Eu cantava a música da Celine Dyon e subia em algum lugar um pouco alto só pra abrir os braços. E claro qual adolescente não chorou em Um Amor pra Recordar, hãn?

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E eu sempre fazia a parte instrumental destas entradas, tan tan tan.

http://www.youtube.com/watch?v=AVoBxpS4Bgs

http://www.youtube.com/watch?feature=fvwp&v=PNsz-GS0A3E&NR=1

Eu acho que vi um gatinho.

http://www.youtube.com/watch?v=FT15-J9HWCw

Nostálgicos e clássicos.

Entre os favoritos estão: “Peixe Grande e suas Maravilhosas Histórias” do Tim Burton, é uma leveza, uma inocência, riquíssimo de detalhes, já assisti inúmeras vezes.

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http://www.youtube.com/watch?v=aYYGwLJoJHk

“Laranja Mecânica”, dirigido por Stanley Kubrick, pela temática do filme e suas críticas relacionadas à sociedade, e “Na Natureza Selvagem”, dirigo por Sean Penn, pelo fato da história ser verídica e você entra na história, nossa, quantas vezes já pensei em largar tudo e a trilha sonora do Eddie Vedder, é demais.

O incrível do cinema é isso, inventar, recriar, criar, não há limites para a imaginação humana, o próprio Glauber Rocha citou:

“Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão. E é isso aí.”

E claro, não vamos esquecer-nos dos filmes brasileiros. O que escuto muito por aí, é que filme brasileiro retrata só favela, ou o norte do país. Primeiro ponto,há variados filmes que retratam de inúmeros temas, segundo ponto é que está representando a realidade do nosso povo, chega de querer Hollywoodiazar nossa cultura, segue abaixo um link com vários filmes brasileiros online, afinal, isso aqui está para ser compartilhado, né não? Os meus favoritos são: “Romance” e “Lisbela e o Prisioneiro”, com a direção de Guel Arraes e “O Palhaço” de Selton Mello.

http://www.youtube.com/playlist?list=PL9CBB5A6C86BEA452&feature=edit_ok

“Os amores desgraçados costumam render belas histórias.”

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“Eu faço o povo rir, mas ai quem é que vai me fazer rir?” – Benjamin

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E agora, eu peço pra sair. Hasta la vista, baby e que a força esteja com você.

Todos dizem eu te amo

Editora Responsável: Roberta Rodrigues

 … mas poucos amam

Pode até parecer clichê essa frase de tanto que visualizamos por aí, mas analisando até que faz sentindo. Hoje, muitos relacionamentos não passam de meros contratos e atualizações facebookianas, se não bastasse isto, parece que a todo momento queremos declarações infinitas de amor, jantar a luz de velas todas as noites, presentes caríssimos, e claro toda a privação de você não sair com seus amigos, ir aos lugares que frequentava antes. Quase que uma propriedade, e o perigo mora aí, quando o fim aparece em letras garrafais como nos filmes clássicos, a pessoa tem que se reconstruir de passados, de amigos que deixaram de ser visitados, lugares que se frequentava, não é fácil o começo do fim. Como Belchior cita:

“Quantas vezes nós fingimos alegria, sem o coração sorrir
Quantas vezes nós deitamos lado, tão somente pra dormir
Quantas frases foram ditas com palavras
Desgastadas pelo tempo, por não ter o que dizer
Quantas vezes nós dissemos eu te amo,
Pra tentar sobreviver“

 Todo esse romantismo foi idealizado pelas telas de cinema, a questão aqui não é discutir cinema até porque eu adoro ou criticar os casais que nos emocionam, mas entender como às vezes somos egoístas de exigir tanto do outro, sem retribuir, relacionamentos se tornaram jogos de favores, ou eu faço o que você espera de mim e não o que sou.

 

Não, não quero generalizar, mas o que observo como espectadora dessa espécie humana, é que as palavras com um impacto tão forte são ditas sem a devida essência, deve ser, porque as palavras sempre foram impactantes na minha vida, e sim, há certas coisas ditas que cortam a alma feito navalha, e um eu te amo, em uma semana de namoro é algo tão vazio, tão frio, porque amor é algo construído dia a dia, você aprende a respeitar a pessoa que está ao seu lado, compreende suas dificuldades e está ali presente, nos bons e ruins momentos. Acredito que o amor não se encontra nos presentes caros, nas declarações virtuais e sim, nas pequenas atitudes cotidianas que fazem diferença.

Esses dias, eu e minha amiga resolvemos falar do amor, do afeto, das histórias e ela comentou:

– Ah, como eu queria ter a história de amor das minhas avós, sabe, sou uma sonhadora mesmo.

 

Ela começou a contar a história de seus nonos, confesso que me emocionei e até senti um leve arrepio, de como o amor de duas pessoas que eu nem conhecia foram tão significativos para mim. Sinceramente, essa história daria um belo livro ou uma produção cinematográfica, porque foi verdadeiro, sincero, companheiro e durou uma vida inteira, eles viveram sessenta anos juntos e constantemente apaixonados.

Eu vou me construindo a partir do que vejo, do que escuto, sou remendo do mundo, história ambulante, e com certeza esse pedaço de conto vai ficar guardado comigo, entre as lembranças cotidianas, pela simplicidade dos atos, a inspiração veio à tona e resolvi descrever para vocês alguns trechos.

Segundo o que conta a minha amiga, eles tinham um amor tão intenso, que quando ela queria uma fruta que não fosse da estação, ele procurava só pra agradar ela (detalhe: foi há muitos e muitos anos atrás, cidade de interior, onde não havia supermercados e toda essa modernidade que nos consome), tudo que fosse de alcance ele fazia por sua amada, e claro, que como toda a história de amor, também há brigas e desavenças, o protagonista da história, trabalhava em uma holaria, e a moça sempre ia levar o almoço para ele, e aí se tivesse alguma mulher perto do moço, era um barraco que só e ainda levava uns cascudos. Com o passar dos tempos, passamos por transformações e claro, coisas acontecem conosco, a nona sofria de trombose, e por vergonha, ela dormia em um quarto separado, mas vocês acham que o avô ia deixar ela sozinha? Que nada, ele ficava deitado do lado da cama, até ela dormir e somente depois, ía para sua cama, isto quando não dormia lá, no chão. Um fato interessante, é que ele era alemão, e desprezava o nazismo e Hitler, mas, entretanto, todavia, sem escolhas o moço foi servir ao exercito alemão, e adivinha o que ele fez pra voltar para sua amada? Com medo de morrer e deixar sua mulher sozinha, ele quebrou a própria perna para ser liberado do serviço militar. O mais significativo, foi quando ela me contou que como era cidade pequena, não havia tanta iluminação, os dois ficavam na varanda olhando as estrelas, enquanto se assava pinhão no fogão a lenha, conversando e ele tocando gaita, e passavam horas e horas ali, observando, algo tão simples. Pelo que ela me contou, sua nona era durona, não era manteiga derretida, não expressava muito seus sentimentos, mas o olhar não mente, mas o nono, ah o nono, não media esforços pra dizer do seu amor a todos. E como todo o fim e a única certeza que temos, a morte separou esse casal, ele ficou o tempo todo perto de sua amada nos últimos minutos, foi o primeiro e o último a se despedir, ele chorava exarcebadamente porque não conseguia enxergar direito a sua amada, mas nada que um óculos emprestado não  resolve, e a noite, em um quarto fechado se ouviam os sussuros, baixinhos de saudade, junto com o barulho da sua gaita, em noite estrelada. E toda a noite, mesmo faltando fôlego, ele tocava a música favorita da nona, juro pra vocês que uma lágrima escorreu, não, não é drama, é que em um lugar com muitas pessoas de lata, sem coração, histórias assim, me fazem ver e sentir o verdadeiro amor, a sensibilidade toma conta. Não é preciso um super carro para o casal sair, às vezes, aquela volta na praça pode ser tão prazerosa quanto um sorvete de morango, o amor reluz mais do que qualquer jóia. O amor está presente nos dias ensolarados e nublados, em cada canto escondido pronto para ser encontrado, está no olhar, no sorriso, na parceria, na amizade. Ele está por aí, mas ele não está pronto não, vai crescendo com o tempo e o respeito.  Todos nós queremos que os amores de verão sejam eternos, queremos serenatas, poemas, ouvir demasiados eu te amos, i love you, te quiero, queremos rir a todo momento e chegar ao céu e voltar para a realidade, imaginando ser um sonho. Mas e nós? Fazemos isto pelo outro ou só esperamos? Sufocamos o outro, pelo nosso bem? Não seria egoísmo?

E você já viveu uma história de amor? Conte aí para nós, beijinhos.

 

Liberdade pra dentro da cabeça (8)

“Querer-se livre, é também querer livres os outros. “

 Hoje a ilustre convidada mafagafa, será a tia Simone de Beauvoir, gente ela é linda, magavilhosa. Bom, o feminismo está presente desde cedo em minha vida, quando reivindicava que poderia sim brincar com os meninos, jogar bola, subir em árvores, eu só queria ser criança, mas sempre tinha alguém pra dizer ‘heeey menina, você não pode fazer isso, senta direito, se veste como menina, brinca de boneca, larga essa bola, arruma o cabelo, coloca esse inseto no chão, arhg e afins”, eu não compreendia ao certo porque as coisas deveriam ser assim, mas,  batia o pé e corria pra brincar com os guri da rua. Na adolescência a situação é mais complicada, na qual, você precisa seguir certos padrões estéticos e culturais para ser aceito. Quando você começa a ler, pesquisar e refletir, compreende como as coisas funcionam, se questiona e percebe que não é algo tão simples, há todo um processo histórico e cultural, advindo de séculos,  que foi construído, para que mulheres e homens sigam padrões e estereótipos, que acabam, por vezes, se naturalizando, sem questionamentos, e que simplesmente se normatizam.

 “(…) não acredito que existam qualidades, valores, modos de vida especificamente femininos: seria admitir a existência de uma natureza feminina, quer dizer, aderir a um mito inventado pelos homens para prender as mulheres na sua condição de oprimidas. Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas de tornarem-se seres humanos na sua integridade.’ 

 

Simone questiona sobre os gêneros, que somos seres humanos e não divisões,  ler os livros dela é libertador, você  começa a se questionar e ainda afirma: – Mas olha, não é que é verdade? ‘O Segundo Sexo’ volume I e II (que estou lendo ainda e quanto mais eu leio, mais e mais e mais, quero ler,  estou me apaixonando pela maneira como ela descreve e claro, o seu incrível sarcasmo é ótimo, alfinetando geral), traz  todo um enredo histórico sobre a mulher e as questões dominantes, patriarcais, um estudo aprofundado sobre a condição feminina e humana, tratando de conceitos biológicos, psicos e sociais. O mais interessante é que depois de leituras, questionamentos, reflexões, percebemos o quanto podemos ser e somos livres, através do conhecimento, tiramos essa faixa escura dos nossos olhos, enrustida de preconceitos e ignorância.

“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância. “

Ou seja, podemos ser o que bem entendermos, apesar dos empecilhos machistas que encontramos em cada esquina.

O que mais acho espetacular nessa autora, é sua ousadia de escrever sobre a nossa liberdade, na época do pós-guerra, o patriarcalismo vigorava com maior intensidade (claro, na contemporaneidade há muito ainda), causou e causa, grandes polêmicas pelos pensamentos moralistas e conservadores, uma obra,  que condiz sobre as nossas vontades,  que devem ser respeitadas e não controladas ou submetidas  por algo  dominante. Compreendendo que todos somos seres humanos, íntegros e que devemos ser respeitados.

“O fato de que sou escritora: uma mulher escritora, não uma dona-de-casa que escreve, mas alguém cuja existência, em sua totalidade, é comandada pelo ato de escrever.”

E a celebre e classe frase, que diz “não se nasce mulher, torna-se”, ilustra bem, vários conceitos voltados para o universo feminino, que são construídos historicamente. Simone, conseguiu organizar e traduzir sentimentos e sensações que nós mulheres sentimos, como as questões desiguais e indiferentes, colocando uma visão feminina acerca de vários conceitos, e nada melhor do que uma mulher, colocando a sua percepção, de como se sente, de como é visualizada pela sociedade.

Somos sim, donas do nosso destino, da nossa sexualidade, e não, não queremos ser submissas e indiferentes, andar nas sombras masculinas, só queremos o respeito, a dignidade e acima de tudo, liberdade e igualdade .

Beijos mafagafos e lembrem-se, somos livres.

Lispectoreando

Lispectoreando

“Os escritores são meros ladrões do cotidiano, transformando esse tédio refinado em algo azul. O pensamento voa feito borboleta, sem destino. Esse declínio, feito menino, sobressalta sobre o vento, se inspirando, suspirando.” (Giovanna Ritchely)

Há mulheres que são referências, renovando e moldando nossas preferências.  Sempre temos alguém em quem nos inspirar e admirar. Essas mulheres fazem parte do quebra-cabeça construtivo da nossa personalidade. Além dos paradoxos estéticos, há toda a essência do  ”ser ou não ser, eis a questão”, temos atitudes ou conceitos que nos inspiram, seja pelo olhar daquela aclamada atriz, da voz suave da cantora, da mulher do dia-a-dia que batalha nas rotinas puxadas e estressantes, mas mesmo assim seguem sorrindo, e claro, todas as outras que fizeram e fazem história.

Qualquer palavra é um enredo para a construção da nossa história, todas as pessoas que passam pelos nossos dias nos marcam de alguma forma e contribuem positivamente ou negativamente. Cada uma dessas pessoas é personagem da nossa peça de teatro individual. E nas palavras, não poderia ser diferente, a inspiração aparece como semente.

Desde que me conheço por gente, lembro dos  livros, quando visitava minha avó no interior do  Paraná,  parava nesses cantos de estrada e sempre ganhava de minha mãe pequenas histórias ilustradas, tinha uma grande coleção e tratava como um tesouro, um teletransporte de mundos, queria navegar, outras horas flutuar e voar, voar, a doce imaginação nostálgica.

Talvez, seja por isso que tenha uma apreciação demasiada por livros, quando leio algo é como se estivesse batendo um papo com um deus grego, me agregando de inspiração e sintonia em um universo paralelo, um livro que me inspira e me insere na história, fazem com que as personagens sejam meus companheiros de bar,  aqueles amigos íntimos que me contam os segredos mais ocultos e me fazem rir das desgraças cotidianas dessa vida.

E quando  a palavra FIM resolve aparecer em letras estrondosas,  sinto um vazio, como se abrisse um abismo entre os meus pés. Dentre tantas escritoras, poetisas, uma das que me inspiram, com certeza é a senhorita Clarice, pelos seus escritos e sua personalidade.

Clarice, nasceu na Ucrânia de família judaica, recebeu o nome de Haia, seu nascimento ocorreu quando  sua família emigrava para o continente americano, fugindo dos ataques nazistas. Veio para o Brasil ainda pequena, sua família passou por situações financeiras dificeis, entretanto, a leitura sempre estava presente em sua vida, pegava livros emprestados da biblioteca de uma amiga, entre os livros estava ‘Narizinho’ de Monteiro Lobato.

(A pequena Clarice, esboçando um sorriso)

Fernando Sabino a descreve brevemente, poeticamente e profundamente:

Clarice Lispector é uma coisa escondida sozinha num canto, esperando, esperando. Clarice Lispector só toma café com leite. Clarice Lispector saiu correndo correndo no vento na chuva, molhou o vestido perdeu o chapéu. Clarice Lispector é engraçada! Ela parece uma árvore. Todas as vezes que ela atravessa a rua bate uma ventania, um automóvel vem, passa por cima dela e ela morre.

(Um cigarro,  máquina de escrever e palavras)

Com a expansão da internet, várias frases surgiram com o nome da referida, é interessante para se conhecer um pouco da obra da mesma, entretanto, se limita o todo e se cita frases, pensamentos que não são do mesmo. E quem nunca leu, postou, escreveu em uma folha sem vida,  uma frase de Clarice, que traduz as dores de cotovelo, os amores inconstantes, para falar da vida, da dor, ou  simplesmente, para se auto afirmar? Essa autora reescreve os poemas dos poetas, inspira os amantes. Ela é daquelas que marca o outono, é tempestade no verão.

Dentre tantas frases, essa é uma das que mais me agradam.

“Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece.”

 Clarice, Haia, ou simplesmente aquela escritora, poetisa que traduz em palavras sentimentos de amor e liberdade. Que nos arranca deste sufoco real, quem me derá viver só de poemas e contos.