Shhh: silêncio!

Editora Responsável: Roberta Rodrigues

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“Carla, até entendo que essas discussões sejam pertinentes, mas não seria melhor falar de coisas boas? Sabe, o mundo anda cheio de pessoas más, cometendo crimes, sendo preconceituosas, matando, roubando, enganando e tals. As mulheres, os gays, os negros e as minorias, em geral, são oprimidos isso é fato e não vai mudar porque tu quer e ficar postando coisas não adianta” (sic).

Acreditem, ouvi essas palavras acima. O mais chato é que o discurso, com algumas variações, já foi repetido por diferentes pessoas e que são nada parecidas entre si. O que isso me indica?

Hipótese: sou uma chata que posto coisas desinteressantes.

OK. Concordo em partes. Talvez, as pessoas não queiram saber que crianças são exploradas, meninas se suicidam por culpa do bullying, mulheres sofrem estupros coletivos e negros são vitimas de racismo em diferentes esferas.

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Claro, como é bem observado pelas pessoas que me dizem que devo parar de postar essas “coisas” – assim como é melhor que eu pare de discutir e apenas guardar a minha opinião para mim – o silêncio é curador.

Prestem atenção para a dica: não gosta de algo, do seu salário ser mais baixo, por exemplo, basta ficar quieta que isso mudará. Nem pense em pedir aumento, fique em silêncio e, de preferência reze para que as coisas melhorem. É mágico, basta parar de se preocupar com algo que ele desaparecerá.

Funciona mesmo. Eu, por exemplo, parei de postar coisas “ruins” e desde então mulheres não são mais mortas por seus parceiros, crianças brancas e negras são tratadas da mesma maneira e me parece que há uma ditadura gay vindo por aí. Lindo né? SÓ QUE NÃO.

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Mais do que nunca precisamos discutir as verdades (im)postas. Devemos nos posicionar, assumir responsabilidade e fazer algo para mudar. Nem que seja por meio das redes sociais, ou coisa que o valha. Afinal, o silencia só agrada aos que não têm muito a dizer.

Ressalva: não peço que tenham a mesma opinião que eu, isso não é saudável. Quero discussão,  questionamento e tudo mais que for para melhorar o mundo ou a nossa realidade. Por fim, desejo que recusemos ao silêncio, pois enquanto não nos deixarem sonhar, não devemos deixar que eles durmam.

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Quem quer morar na Índia?

Editora Responsável: Roberta Rodrigues

Em uma onda constante de violência contra a mulher, um caso recente acontecido na Índia está repercutindo mundialmente. Uma estudante de medicina de 23 anos morreu devido a um estupro cometido por seis homens em um ônibus. Além da barbaridade do fato, existe um problema maior: esse é apenas um número entre os 24 mil casos anuais registrados no país.

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A Índia é o pior lugar para o sexo feminino viver, mas, em contrapartida, existem diversas cadeiras da política ocupadas por mulheres. Nesse sentido, a religião pode ser um fator agravante, ainda mais se considerarmos que é comum em inúmeras religiões a condenação da mulher a ser submissa, inferior e sem poder de palavra. Há quem diga, até mesmo, que nem alma possuem.

Já dizia a bíblia: “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo”.  Mesmo possuindo credos diferentes do Cristianismo, sua estrutura patriarcal é a mesma, porém, mais arcaica. Um dado que prova isso é o número de mulheres mortas por queimaduras, na maioria dos casos, referentes ao pagamento dos dotes matrimoniais.

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Outro fator agravante da violência é o descaso das autoridades. O governo promete leis mais rigorosas para a proteção de suas mulheres, mas nada acontece. Eis que pergunto: o que se espera de uma bancada em que seis deputados são acusados de estupro?

Levando em consideração que a Índia é o segundo país mais populoso do mundo e sétimo em território, esses dados são alarmantes. Uma das atitudes de combate a esse tipo de violência é publicar nomes, fotos e endereços de estupradores na internet para “envergonhá-los” publicamente. Isso, se condenado e, levando em consideração a negligencia da polícia e do sistema judiciário indiano, não é nada animador.

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O que difere um homem de uma mulher é sua estrutura fisiológica, mas o que promove a desigualdade de gênero é a hipocrisia e a lógica machista. Então, caso você não seja muito rica ou do sexo masculino, sugiro que não vá morar na Índia.

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Saindo do continente asiático e voltando para o Brasil, não é necessário uma pesquisa de 5 minutos para encontrar notícias como: “Bispo sugere que mulheres só são estupradas quando querem” ou “Padre acusa mulheres de serem culpadas por estupros”. Se os próprios religiosos, pessoas que influenciam massas e estão no topo da cadeia hierárquica do mundo proferem ideologias como essas, imagine quem já possui tendências históricas e pessoais a ser machista? Mas, Vossa Santidade, não queria que eu aceite argumentos do tipo: teve uma vida promiscua, por isso foi estuprada; estupro é desculpa para abortar; as mulheres com roupas justas se afastam da vida virtuosa e da família e provocam os piores instintos dos homens; as mulheres estão se tornando cada vez mais arrogantes e autosuficientes, e, esse é um agravante para a violência sexual.

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Em uma realidade onde notícias como a da estudante que se jogou de um prédio por causa de um estupro realizado por colegas de trabalho em uma confraternização, estupros coletivos, violência, ignorância, incompetência, negligencia são tão comuns, me deixa triste saber que todo um país é governado por um livro escrito em hebraico e traduzido de qualquer forma por infinitas pessoas nos últimos dois mil anos, e não pela constituição. Ninguém precisa que um livro lhe diga como ser bom ou ruim, até uma criança consegue discernir o bem do mal, a diferença é que elas não conseguem diferenciar o certo do errado, o que um adulto com o poder de discernimento possui total capacidade. A Índia pode ser o pior país para se morar, mas não precisa ir tão longe assim para ser ruim.

O caso Skol, a banda New Hit e o estupro

O espaço era o banheiro de um ônibus. Nove homens se revezaram. Enquanto um imobilizava a vítima, o outro a violentava. No sofá do lado de fora, a outra vítima recebia o mesmo tratamento. A sessão durou até que os nove homens se dessem por satisfeitos.

A história poderia ter permanecido trancafiada na memória das duas meninas, aterrorizando apenas a elas, como acontece com muitas vítimas de estupro. Mas elas tiveram muita coragem e força: denunciaram os criminosos.

A reação de muitas pessoas foi espantosa. “Elas quiseram”, “ninguém mandou entrar no ônibus”, “elas gostaram”, “usavam roupas curtas”, “vadias”, disseram alguns. Escutei argumentos ainda mais assustadores, como: “mas elas nem se debateram”, “se não quisessem, teriam reagido, mas os caras saíram sem nem um arranhão”. A onda de comentários culpando as próprias vítimas foi muito maior que a de pessoas questionando os agressores por seu complexo de semideuses e o absurdo de quererem ter autonomia sobre os corpos alheios. O choque pela denúncia foi maior do que o choque pelo crime em si.

Ainda não mencionei os fãs da tal banda – homens e mulheres – com suas campanhas pela soltura dos criminosos. Nem falei sobre as ameaças de morte que as vítimas e seus familiares sofreram, a ponto de precisarem do Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte.

No decorrer do processo, após a violência física, as meninas fizeram exames para provar o que diziam. E comprovaram. O laudo médico constatou, entre outras coisas, fissura no intróito vaginal. Isso significa, em outras palavras, que elas foram rasgadas por dentro. Literalmente.

Os mocinhos foram pra cadeia e passaram 38 dias lá. Com o segundo habeas corpus, foram soltos. E já têm um show marcado! Num período de menos de dois meses, os caras (que não eram ninguém, diga-se de passagem) destruíram a vida de duas pessoas, ficaram nacionalmente conhecidos por isso e foram premiados com uma reestréia-monstro patrocinada por uma das maiores marcas de cerveja do país. Yay!

E as meninas? Continuam escondidas, numa espécie de prisão, para se proteger das ameaças. Afinal, “ninguém mandou”, né?

Os apelos populares fizeram com que a Skol retirasse o patrocínio antes do fechamento desse texto. Mas só por pressão mesmo. Isso não faz da marca uma heroína: a Skol não deveria sequer ter cogitado essa possibilidade! O que você pensa sobre esse caso?