Seu amor, nosso ódio

Editora Responsável: Ana Carolina Meller

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Existe uma bancada evangélica na nossa política (estado laico mandou um beijo!) que está tentando promover a cura gay.  Essa “cura” é um projeto que deseja sustar os artigos em que é proibido tratar a homossexualidade como um transtorno. Sim, eles querem que a homossexualidade seja tratada como doença.

Nesse contexto, surgem nomes como Jean Wyllys. Baiano de Alagoinhas, ele ficou conhecido, nacionalmente, após ganhar o reality show Big Brother Brasil, em 2005. Jornalista, Mestrado em Letras e Linguística pela UFBA, professor de Cultura Brasileira e Teoria da Comunicação e eleito em 2010 pelo PSOL, é um defensor da igualdade.

Do outro lado da história, surge Silas Malafaia: um pastor evangélico homofóbico e grande estimulador dessa sustação. (Se você ainda não viu o vídeo da audiência pública, pode ver aqui.).

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Quando você expressa sua opinião de que a homossexualidade é algo errado, ruim, do capeta, de lúcifer, do demônio (…) você justifica atos de violência e homofobia. É uma pena que qualquer crítica a isso vire uma suposta tentativa de censura.

O que muitos não entendem é que a questão não é censura, é o preconceito – mas, a homofobia não é considerada crime no Brasil. A situação se torna ainda mais grave, se levarmos em consideração a influência da igreja evangélica no país. Só pelo fato de existir uma bancada evangélica no senado, já se pode perceber que há algo errado e que, realmente, essa suposta laicidade já está mandando um abraço faz tempo!

Autoridade científica (só que não), Malafaia diz que o racismo é errado, pois a pessoa não tem escolha, é algo genético. Já a homossexualidade é escolhida, ou seja, é a OPÇÃO sexual de cada um. O que ele não se dá conta que é, na realidade, não existe opção sexual, e sim, orientação. (Vale lembrar que a igreja já utilizou discursos bíblicos para negar direitos aos negros.).

Para completar, a constituição fala sobre a tolerância religiosa e liberdade de crença, incluindo a de não acreditar em nada (o que, para mim, é um mito, pois se você não acredita em algo, as pessoas logo te julgam como “endemoniado” ou tentam te enfiar alguma crença goela abaixo).

Infelizmente, essa tolerância não acontece. O que vemos por aí é que vários fatos são ignorados e outros, simplesmente, são manipulados, fazendo com que muitos até concordem com essa cultura de ódio e alienação. O resultado são pessoas que não questionam mais o que é certo ou errado, afinal, se o padre/pastor está dizendo, está tudo certo. Amém.

O burro, a cabra e o espinafre

Editora Responsável: Ana Carolina Meller

Sendo bem direta, esse post é uma análise do artigo “Parada gay, cabra e espinafre”, afinal, não podemos ignorar a desagradável matéria de J.R Guzzo (quem quiser ler na íntegra o link é esse).

O autor começa seu texto afirmando que o chamado “Kit Gay” foi uma ação “infeliz”. Em seguida, alega que não é normal ser gay, defendendo seu ponto de vista com a seguinte frase: “(…) houve muito ruído em torno do infeliz “kit gay” que o Ministério da Educação inventou e logo desinventou, tempos atrás, para sugerir aos estudantes que a atração afetiva por pessoas do mesmo sexo é a coisa mais natural do mundo”.
A introdução do texto de Guzzo afirma que ser gay não é tão difícil como era antes, mas que, mesmo assim, as famílias não querem que seus filhos sejam homossexuais. Além do mais, o autor aponta que o Código Penal Brasileiro pode considerar denúncias por injúria (de acordo com o artigo 140) quando alguém heterossexual é chamado de gay.

No segundo parágrafo, o colunista continua discursando sobre a pouca importância de combater a antipatia social em torno do homossexualismo. Diz ainda que os homossexuais querem mais direitos que os heterossexuais, que o
que desejam é serem tratados como uma raça frágil. Suas palavras seguem preconceituosas, atestando, até mesmo, a inexistência da comunidade gay e de suas lideranças. Ele justifica essa afirmação com a seguinte frase: “(…) a única coisa que têm em comum são suas preferências sexuais – mas isso não é suficiente para transformá-los num conjunto isolado na sociedade, da mesma forma como não vem ao caso falar em “comunidade heterossexual” para agrupar os indivíduos que preferem se unir a pessoas do sexo oposto (…)”.

No 4º parágrafo, Guzzo comete um grave erro (entre tantos outros, facilmente identificados em seu deplorável texto). Ele diz que a estatística de homossexuais assassinados em 2010 (que foi de 250 a 300) está dentro do número de homicídios ocorridos por ano (um total de 50.000). O detalhe é que o autor esqueceu-se de considerar que esse número corresponde a pessoas mortas, simplesmente por sua orientação sexual – e não por qualquer outro motivo.
Continuando nossa análise, segundo o texto o termo homofobia é utilizado para qualquer ato que desagrade às entidades ou militantes da causa gay. Guzzo ainda diz que todos têm o direito de não gostar de homossexuais, assim como têm o direito de não gostar de espinafre e, logo, que isso não é crime. Para ele, o preconceito é imaginário. O fato de homossexuais não poderem doar sangue não é algo preconceituoso – já que pessoas com mais de 65 anos ou doentes também não podem. Mas espere um momento… Qual a semelhança de um homossexual com essas pessoas? Uma das piores e mais infelizes partes do texto é quando o autor fala que pessoas do mesmo sexo podem, sim, viver e andar livremente juntas. Mas, não podem se casar, pois o casamento, por lei, é uma união entre um homem e uma mulher.

Conforme levantado por Guzzo, o casamento deve ser entre pessoas do sexo oposto para que seja possível gerar filhos, laços de parentesco e, de fato, formar uma família. Eis então, que o autor libera uma das maiores pérolas de seu artigo ao dizer que, assim como pessoas do mesmo sexo não podem se unir legalmente, um homem também não pode se casar com uma cabra. Em sua defesa, o colunista afirma que esse mesmo homem pode até ter uma relação estável com a tal cabra, mas que, definitivamente, não pode se casar com ela.

E as comparações não param por aí. Guzzo também diz: “(…) Não pode se casar com a própria mãe, ou com uma irmã, filha, ou neta, e vice-versa. Não poder se casar com uma menor de 16 anos sem autorização dos pais, e se fizer sexo com uma menor de 14 anos estará cometendo um crime. Ninguém, nem os gays, acha que qualquer proibição dessas é um preconceito. Que discriminação haveria contra eles, então, se o casamento tem restrições para
todos? (…)”. Diante disso, a tentativa de transformar a homofobia em crime é classificada como nociva, já que, segundo o texto, todos têm o direito de odiar homossexuais. O que ele se esquece, porém, é que 77% da população brasileira é a favor da criminalização da homofobia – ao contrário do querido jornalista Roberto Guzzo.

Na conclusão de seu texto, o autor fala que não há necessidade de fazer paradas gays, pois as maiores conquistas dos homossexuais foram alcançadas graças ao curso natural da história. Baseado em argumentos totalmente homofóbicos, o colunista da revista Veja, Exame e diretor editorial da Abril, prega uma cultura de preconceito e, como se não bastasse, usa dados manipulados. Fatos como esse demonstram que o Brasil está longe de ser um lugar pacífico, como muitos dizem. Permitir que um jornalista exponha uma opinião preconceituosa em uma revista com tiragem de 1 milhão, definitivamente, acarreta consequências muito mais graves do que uma mera conversa em uma roda de amigos. Trata-se de uma influência midiática que pode incentivar a homofobia e fortalecer a de quem já a possui. Preocupante, Sr. Guzzo!