Mulheres da Literatura

Mulheres e Livros

No inicio da semana passada as meninas propuseram homenagear as “grandes” mulheres da história, discorrendo sobre os maiores feitos alcançados por elas nesse último século. Afinal, mulher é muito mais que peito e bunda. Mulher é alma e causa. Ação e reação. E acima de tudo é testemunha e jurada de séculos e mais séculos de machismo trucidante.
Propus algo diferente. Se acabou ou não a semana da mulher, fica a seu critério querido leitor (a). Para mim, todas as semanas são nossas, bem como os meses e os anos. Por que nos relegarmos a apenas um dia no calendário? Por que esperar por uma data somente, quando podemos celebrar todas as horas como se fosse uma festa onde a maior atração é estarmos simplesmente vivas?
Pois bem mulheres. Proponho a convocação de todos os deuses e almas, um festival eterno de sorrisos e flores. Onde não haja motivos para choro, muito menos tristeza. Sugiro que o riso argentino de Aurélia seja a música ambiente e que os olhos de ressaca de Capitu virem aquarelas vivas penduradas pelo salão, com o único intuito de seduzir homens, desarmar exércitos e conquistar territórios inexplorados.
Nos armemos com as palavras dessas mulheres floridas que desbravaram um universo repleto de heróis masculinos. Mulheres capazes de desgraçarem vidas com um olhar e levarem famílias a bancarrota com apenas um beijo. Gostaria que falássemos sobre Marguerite/Lucíola sem nos envergonhar das fraquezas humanas ou da languidez da alma.
Pode soar egoísta, feminista ou sem nexo. Mulher tem dom, direito e dever de não fazer sentido. E assim como todas as personagens fortes do universo feminino literário, tudo isso não passa de meras e envelhecidas palavras. Mas que pela antiguidade e as marcas do uso, ganham o poder do respeito.
Que fique claro, as personagens citadas aqui fazem parte da minha coleção de lembranças literárias e elas serão descritas por uma entusiasta das visões prosaicas masculinas sobre o mundo feminino. Sou uma “alma velha” que se apaixonou a primeira vista por Alencar, tomou gosto por um tal de Assis, tentou se encantar por Guimarães Rosa, mas ao fim, descobriu que seu tipo faz parte da sessão empoeirada e amarelada de “literatura estrangeira”.

José de Alencar, escritor urbanista do século 19

José de Alencar, escritor urbanista do século 19

Aurélia, Emília e Lucíola, para mim, as três mais belas jovens dos salões de festa da alta sociedade do Rio de Janeiro do século 19. Não desconsidero, é claro, Ceci ou qualquer outra moça que tenha brilhado nas noites de galas, oferecidas por velhos barões ou jovens casais. Noites essas tão bem descritas que sempre acho possível ouvir o riso, sentir o cheiro das velas e o gosto do Xerez (um tipo de vinho espanhol, muito apreciado pelas personagens citadas). Talvez, o mais certo e justo, fosse falar delas separadamente, por conta das nuances em suas personalidades. Mas não tenho poder de escrita para tanto. Sei apenas que tais personagens podem ser consideradas um marco na literatura brasileira e não digo isso somente por admirá-las, afinal os fatos históricos estão aí e a mostra. Alencar elevou a mulher ao mesmo patamar dos homens. Hoje, isso pode não ser considerado nada, mas imaginemos uma época onde o patriarcalismo familiar impedia a ascensão feminina. Dessa forma, Alencar ao dar-lhes o poder da argumentação, explicitar o dom da sedução e assegurar a obstinação de caráter, abriu espaço para sonhos e questionamentos. Mostrou que a mulher além de poder sonhar com amores e príncipes, pode e deve desbravar o mundo dos negócios, se vingar de quem lhe fez mal e ser ela mesma, em vestidos de seda ou não. Saem os seres submissos, de feições frágeis e olhares assustados, para entrar em cena mulheres repletas de vida, capazes de sofrer e aprender a viver com suas dores, mas principalmente, capazes de lutarem com suas próprias mãos, quer seja por felicidade, respeito ou simplesmente, por amor. A mulher deixa de ser a coadjuvante das histórias para atuar de maneira fantástica em uma peça só delas, onde tudo pode acontecer, desde navios naufragados a amantes escondidos.

Capitu foi utilizada como personagem em uma minissérie na TV baseada no Livro Dom Casmurro

Capitu foi utilizada como personagem em uma minissérie na TV baseada no Livro Dom Casmurro

Acredito que Capitu seja fruto dessa revolução proposta por José. Apesar de a história ser contada por Dom, é ela o centro, a questão, o quadro a ser apreciado. E se não fosse por ela, não haveria graça e Dom Casmurro seria mais um desses livros chatos. Mas então tem os olhos oblíquos e dissimulados, uma coisa cigana, um ar de rainha em alguém que nasceu na plebe. De repente ela não é só um amor de menino e sim, o sonho de cada homem. E se eu fosse estúpida o suficiente, faria uma analogia ousada. Casaria uma personagem passada com uma que desfila nos dias de hoje, sob a vista dos avaros caçadores de histórias de cavalheiros, princesas e castelos. Como não conseguirei traçar uma linha lógica de Cersei Lannister até os cabelos escuros de Capitu, desisto antes mesmo de me divertir com a ideia de vislumbrar semelhanças em suas personalidades.
Pois bem, lá se foi Assis e Alencar, com suas divas, senhoras, esposas e Lucíolas. Abrirei as portas agora para Isabel Allende. A diva da literatura chilena, sobrinha do ex-presidente Salvador Allende. Isabel, juntamente com sua família e sim, é preciso saber sobre o ambiente em que vivia para entender sua mais fantástica obra, foi obrigada a fugir do seu então país, Chile, logo após o golpe militar que matou seu tio-presidente.
Seria morbidez dizer que há certos males que vem para o bem? Acredito nisso quando penso nessa história, repleta de simbolismos, saudosismo e acima de tudo, relatos de uma época triste em um país tão próximo. É uma graça ver a fantasia entrelaçar tão bem com a realidade, criando algo além de uma reles história. A Casa dos Espíritos é um livro capaz de trazer a sensação de transcendência da carne, expiação dos pecados e humanização dos sentimentos.
De maneira sucinta o enredo gira em torno de Clara e Esteban Trueba. Aprofunda-se no relacionamento conturbado dos dois, nos frutos provindos de suas coxas e na geração nascida de suas crias. Clara é mãe de Blanca, que por sua vez é mãe de Alba. Todas são constituídas por uma força guerreira e um coração enorme. São mulheres que nasceram para sobreviver a dores da alma e da carne. E um exemplo disso está no fato de que apesar da vergonha, Clara continua a sorrir até o fim de seus dias, mesmo após perder os dentes da frente por conta de um soco desferido por seu querido marido.

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Como se não bastassem todos os problemas familiares, rebenta-se o golpe militar e Alba então estudante/guerrilheira e neta de um grande senhor/político chileno, é presa e abusada física e psicologicamente em nome de uma bandeira que nem os soldados lembravam mais do que se tratava. E é aí que se encontra o brilhantismo de Allende. Suas mulheres não desistem. Seja do amor, da liberdade de expressão ou da família. Elas agarram com força e batem o pé, cospem na cara de militares, brigam com fantasmas e se embebedam até cair.
Pra entender o contexto todo, obviamente é necessário ler o livro. Não da para resumir em poucas palavras toda a profundidade humana presente em A Casa dos Espíritos. Seria imprudente, insano e uma tremenda falta de respeito. É preciso ter olhos para ler, bem como, coração para dar significado a tanta informação. Assim como não dá para afirmar que as sete personagens presentes nesse texto, são o resumo da força feminina literária. Não o são nem por brincadeira. Elas constituem parte de minha lista de preferências. Faltam nomes e histórias, bem como palavras de adoração.
Eu não falei de Madame Bovary, Dagny Taggart ou até mesma de Blue Van Meer. Não citei Layla, personagem fantástica de um livro espírita. Não comentei sobre “A mulher que escreveu a bíblia” do querido Scliar e muito menos adentrei ao universo de forças de Daenerys Targaryen. Como disse, não tenho poder de palavras suficientes para tanto. E o texto aqui, foi muito mais uma homenagem a minha adolescência, repleta de cenas pitorescas e românticas, reproduzidas diretamente dessas obras centradas em grandes mulheres.
Acredito que mulheres feitas de palavras, são tão fortes quanto às das telas de cinemas. E todas, sem nenhuma exceção, são o rascunho filosófico de alguém de carne, osso, alma e sentimentos. Por isso Feliz dia das Mulheres a todas aquelas que matam um leão por dia, usam salto alto e maquiagem para buscar os filhos na porta da escola e se emocionam com a leitura de grandes clássicos literários

Liberdade pra dentro da cabeça (8)

“Querer-se livre, é também querer livres os outros. “

 Hoje a ilustre convidada mafagafa, será a tia Simone de Beauvoir, gente ela é linda, magavilhosa. Bom, o feminismo está presente desde cedo em minha vida, quando reivindicava que poderia sim brincar com os meninos, jogar bola, subir em árvores, eu só queria ser criança, mas sempre tinha alguém pra dizer ‘heeey menina, você não pode fazer isso, senta direito, se veste como menina, brinca de boneca, larga essa bola, arruma o cabelo, coloca esse inseto no chão, arhg e afins”, eu não compreendia ao certo porque as coisas deveriam ser assim, mas,  batia o pé e corria pra brincar com os guri da rua. Na adolescência a situação é mais complicada, na qual, você precisa seguir certos padrões estéticos e culturais para ser aceito. Quando você começa a ler, pesquisar e refletir, compreende como as coisas funcionam, se questiona e percebe que não é algo tão simples, há todo um processo histórico e cultural, advindo de séculos,  que foi construído, para que mulheres e homens sigam padrões e estereótipos, que acabam, por vezes, se naturalizando, sem questionamentos, e que simplesmente se normatizam.

 “(…) não acredito que existam qualidades, valores, modos de vida especificamente femininos: seria admitir a existência de uma natureza feminina, quer dizer, aderir a um mito inventado pelos homens para prender as mulheres na sua condição de oprimidas. Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas de tornarem-se seres humanos na sua integridade.’ 

 

Simone questiona sobre os gêneros, que somos seres humanos e não divisões,  ler os livros dela é libertador, você  começa a se questionar e ainda afirma: – Mas olha, não é que é verdade? ‘O Segundo Sexo’ volume I e II (que estou lendo ainda e quanto mais eu leio, mais e mais e mais, quero ler,  estou me apaixonando pela maneira como ela descreve e claro, o seu incrível sarcasmo é ótimo, alfinetando geral), traz  todo um enredo histórico sobre a mulher e as questões dominantes, patriarcais, um estudo aprofundado sobre a condição feminina e humana, tratando de conceitos biológicos, psicos e sociais. O mais interessante é que depois de leituras, questionamentos, reflexões, percebemos o quanto podemos ser e somos livres, através do conhecimento, tiramos essa faixa escura dos nossos olhos, enrustida de preconceitos e ignorância.

“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância. “

Ou seja, podemos ser o que bem entendermos, apesar dos empecilhos machistas que encontramos em cada esquina.

O que mais acho espetacular nessa autora, é sua ousadia de escrever sobre a nossa liberdade, na época do pós-guerra, o patriarcalismo vigorava com maior intensidade (claro, na contemporaneidade há muito ainda), causou e causa, grandes polêmicas pelos pensamentos moralistas e conservadores, uma obra,  que condiz sobre as nossas vontades,  que devem ser respeitadas e não controladas ou submetidas  por algo  dominante. Compreendendo que todos somos seres humanos, íntegros e que devemos ser respeitados.

“O fato de que sou escritora: uma mulher escritora, não uma dona-de-casa que escreve, mas alguém cuja existência, em sua totalidade, é comandada pelo ato de escrever.”

E a celebre e classe frase, que diz “não se nasce mulher, torna-se”, ilustra bem, vários conceitos voltados para o universo feminino, que são construídos historicamente. Simone, conseguiu organizar e traduzir sentimentos e sensações que nós mulheres sentimos, como as questões desiguais e indiferentes, colocando uma visão feminina acerca de vários conceitos, e nada melhor do que uma mulher, colocando a sua percepção, de como se sente, de como é visualizada pela sociedade.

Somos sim, donas do nosso destino, da nossa sexualidade, e não, não queremos ser submissas e indiferentes, andar nas sombras masculinas, só queremos o respeito, a dignidade e acima de tudo, liberdade e igualdade .

Beijos mafagafos e lembrem-se, somos livres.

Lispectoreando

Lispectoreando

“Os escritores são meros ladrões do cotidiano, transformando esse tédio refinado em algo azul. O pensamento voa feito borboleta, sem destino. Esse declínio, feito menino, sobressalta sobre o vento, se inspirando, suspirando.” (Giovanna Ritchely)

Há mulheres que são referências, renovando e moldando nossas preferências.  Sempre temos alguém em quem nos inspirar e admirar. Essas mulheres fazem parte do quebra-cabeça construtivo da nossa personalidade. Além dos paradoxos estéticos, há toda a essência do  ”ser ou não ser, eis a questão”, temos atitudes ou conceitos que nos inspiram, seja pelo olhar daquela aclamada atriz, da voz suave da cantora, da mulher do dia-a-dia que batalha nas rotinas puxadas e estressantes, mas mesmo assim seguem sorrindo, e claro, todas as outras que fizeram e fazem história.

Qualquer palavra é um enredo para a construção da nossa história, todas as pessoas que passam pelos nossos dias nos marcam de alguma forma e contribuem positivamente ou negativamente. Cada uma dessas pessoas é personagem da nossa peça de teatro individual. E nas palavras, não poderia ser diferente, a inspiração aparece como semente.

Desde que me conheço por gente, lembro dos  livros, quando visitava minha avó no interior do  Paraná,  parava nesses cantos de estrada e sempre ganhava de minha mãe pequenas histórias ilustradas, tinha uma grande coleção e tratava como um tesouro, um teletransporte de mundos, queria navegar, outras horas flutuar e voar, voar, a doce imaginação nostálgica.

Talvez, seja por isso que tenha uma apreciação demasiada por livros, quando leio algo é como se estivesse batendo um papo com um deus grego, me agregando de inspiração e sintonia em um universo paralelo, um livro que me inspira e me insere na história, fazem com que as personagens sejam meus companheiros de bar,  aqueles amigos íntimos que me contam os segredos mais ocultos e me fazem rir das desgraças cotidianas dessa vida.

E quando  a palavra FIM resolve aparecer em letras estrondosas,  sinto um vazio, como se abrisse um abismo entre os meus pés. Dentre tantas escritoras, poetisas, uma das que me inspiram, com certeza é a senhorita Clarice, pelos seus escritos e sua personalidade.

Clarice, nasceu na Ucrânia de família judaica, recebeu o nome de Haia, seu nascimento ocorreu quando  sua família emigrava para o continente americano, fugindo dos ataques nazistas. Veio para o Brasil ainda pequena, sua família passou por situações financeiras dificeis, entretanto, a leitura sempre estava presente em sua vida, pegava livros emprestados da biblioteca de uma amiga, entre os livros estava ‘Narizinho’ de Monteiro Lobato.

(A pequena Clarice, esboçando um sorriso)

Fernando Sabino a descreve brevemente, poeticamente e profundamente:

Clarice Lispector é uma coisa escondida sozinha num canto, esperando, esperando. Clarice Lispector só toma café com leite. Clarice Lispector saiu correndo correndo no vento na chuva, molhou o vestido perdeu o chapéu. Clarice Lispector é engraçada! Ela parece uma árvore. Todas as vezes que ela atravessa a rua bate uma ventania, um automóvel vem, passa por cima dela e ela morre.

(Um cigarro,  máquina de escrever e palavras)

Com a expansão da internet, várias frases surgiram com o nome da referida, é interessante para se conhecer um pouco da obra da mesma, entretanto, se limita o todo e se cita frases, pensamentos que não são do mesmo. E quem nunca leu, postou, escreveu em uma folha sem vida,  uma frase de Clarice, que traduz as dores de cotovelo, os amores inconstantes, para falar da vida, da dor, ou  simplesmente, para se auto afirmar? Essa autora reescreve os poemas dos poetas, inspira os amantes. Ela é daquelas que marca o outono, é tempestade no verão.

Dentre tantas frases, essa é uma das que mais me agradam.

“Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece.”

 Clarice, Haia, ou simplesmente aquela escritora, poetisa que traduz em palavras sentimentos de amor e liberdade. Que nos arranca deste sufoco real, quem me derá viver só de poemas e contos.