Será arte?

Li em algum lugar que estrofe vem do latim e significa algo como “quartos pequenos”. Assim, sempre que você construir uma, estará construindo quartos. Isso me faz pensar que sempre que terminamos um poema, erguemos uma casa. Talvez isso explique nossa necessidade de em meio a problemas buscar refugio naquele poema antigo.

Eu sou “dessas”, sempre que me sinto em uma situação de extrema emoção – positiva ou nem tanto – volto para meus poemas. Vivo citando aqui, fazendo uma paráfrase ali e um “plágio” acolá, repetindo “Carla, sossegue, a vida é isso que você está vendo”.

E pode apostar, há sempre um poema perfeito para toda e qualquer hora, sem exceções. Um de meus versos preferidos é de Ana Cristina Cesar: Alegria! Algoz inesperado. Precisa dizer mais alguma coisa depois disso? Essa é a síntese da vida.

Enfim, por que estou dizendo tantas coisas? Simples. Resolvi escolher alguns poemas para compartilhar com vocês, com apenas o aviso de que são os meus preferidos, por isso, cuidem bem deles. O primeiro é do Carlão, vulgo Carlos Drummond de Andrade, um dos mais conhecidos e de longe o meu preferido, quase um mantra. Depois dele vem o “Com licença poética” da Adélia Prado, que faz referência ao primeiro. E o terceiro escolhido é o Traduzir-se do Ferreira Gullar que eu levo tatuado, que a propósito tem sua versão musicada.

Poema de Sete Faces  – Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Com licença poética  – Adélia Prado
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Qual o seu preferido? Conte aqui pra mim 🙂

Meus ombros suportarão o peso do mundo?

Eu tenho vinte e poucos anos e todos os planos do mundo.

Será que meus ombros suportarão o peso do mundo?

Será que isso vai me levar a algum lugar?

Eu ainda não fui e já quero voltar.

Será que vale a pena?

Isso realmente vai me fazer bem?

Isso vai fazer “alguém” de mim?

Quando vou descobrir quem eu sou?

O que quero?

Será?

E agora?

Quando vou descobrir?

Quando?

Vou?

E o mundo com isso?

E eu com isso?

Com aquilo?

Àquele?

 

Eu tenho vinte e poucos anos e todas as perguntas do mundo, eu não devia (te) dizer, mas as segundas e o chocolate quente me botam comovida como o diabo.

Lispectoreando

Lispectoreando

“Os escritores são meros ladrões do cotidiano, transformando esse tédio refinado em algo azul. O pensamento voa feito borboleta, sem destino. Esse declínio, feito menino, sobressalta sobre o vento, se inspirando, suspirando.” (Giovanna Ritchely)

Há mulheres que são referências, renovando e moldando nossas preferências.  Sempre temos alguém em quem nos inspirar e admirar. Essas mulheres fazem parte do quebra-cabeça construtivo da nossa personalidade. Além dos paradoxos estéticos, há toda a essência do  ”ser ou não ser, eis a questão”, temos atitudes ou conceitos que nos inspiram, seja pelo olhar daquela aclamada atriz, da voz suave da cantora, da mulher do dia-a-dia que batalha nas rotinas puxadas e estressantes, mas mesmo assim seguem sorrindo, e claro, todas as outras que fizeram e fazem história.

Qualquer palavra é um enredo para a construção da nossa história, todas as pessoas que passam pelos nossos dias nos marcam de alguma forma e contribuem positivamente ou negativamente. Cada uma dessas pessoas é personagem da nossa peça de teatro individual. E nas palavras, não poderia ser diferente, a inspiração aparece como semente.

Desde que me conheço por gente, lembro dos  livros, quando visitava minha avó no interior do  Paraná,  parava nesses cantos de estrada e sempre ganhava de minha mãe pequenas histórias ilustradas, tinha uma grande coleção e tratava como um tesouro, um teletransporte de mundos, queria navegar, outras horas flutuar e voar, voar, a doce imaginação nostálgica.

Talvez, seja por isso que tenha uma apreciação demasiada por livros, quando leio algo é como se estivesse batendo um papo com um deus grego, me agregando de inspiração e sintonia em um universo paralelo, um livro que me inspira e me insere na história, fazem com que as personagens sejam meus companheiros de bar,  aqueles amigos íntimos que me contam os segredos mais ocultos e me fazem rir das desgraças cotidianas dessa vida.

E quando  a palavra FIM resolve aparecer em letras estrondosas,  sinto um vazio, como se abrisse um abismo entre os meus pés. Dentre tantas escritoras, poetisas, uma das que me inspiram, com certeza é a senhorita Clarice, pelos seus escritos e sua personalidade.

Clarice, nasceu na Ucrânia de família judaica, recebeu o nome de Haia, seu nascimento ocorreu quando  sua família emigrava para o continente americano, fugindo dos ataques nazistas. Veio para o Brasil ainda pequena, sua família passou por situações financeiras dificeis, entretanto, a leitura sempre estava presente em sua vida, pegava livros emprestados da biblioteca de uma amiga, entre os livros estava ‘Narizinho’ de Monteiro Lobato.

(A pequena Clarice, esboçando um sorriso)

Fernando Sabino a descreve brevemente, poeticamente e profundamente:

Clarice Lispector é uma coisa escondida sozinha num canto, esperando, esperando. Clarice Lispector só toma café com leite. Clarice Lispector saiu correndo correndo no vento na chuva, molhou o vestido perdeu o chapéu. Clarice Lispector é engraçada! Ela parece uma árvore. Todas as vezes que ela atravessa a rua bate uma ventania, um automóvel vem, passa por cima dela e ela morre.

(Um cigarro,  máquina de escrever e palavras)

Com a expansão da internet, várias frases surgiram com o nome da referida, é interessante para se conhecer um pouco da obra da mesma, entretanto, se limita o todo e se cita frases, pensamentos que não são do mesmo. E quem nunca leu, postou, escreveu em uma folha sem vida,  uma frase de Clarice, que traduz as dores de cotovelo, os amores inconstantes, para falar da vida, da dor, ou  simplesmente, para se auto afirmar? Essa autora reescreve os poemas dos poetas, inspira os amantes. Ela é daquelas que marca o outono, é tempestade no verão.

Dentre tantas frases, essa é uma das que mais me agradam.

“Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece.”

 Clarice, Haia, ou simplesmente aquela escritora, poetisa que traduz em palavras sentimentos de amor e liberdade. Que nos arranca deste sufoco real, quem me derá viver só de poemas e contos.